Rosa Andrade completa hoje 90 anos e é a aluna mais velha da Universidade Autónoma de Lisboa. Tem duas licenciatura e está quase a concluir o doutoramento.
Foi do Minho para Lisboa aos 13 anos para fazer a instrução primária. “Quando estava na primeira classe, a professora ligou para o meu pai para eu passar logo para o 2º ano, porque o 1º ano era fácil para mim e estava a perder tempo.” Depois frequentou dois anos de um curso comercial.
Acabou por abandonar os estudos e ir trabalhar como professora de trabalhos domésticos. Porém, quando o jardim infantil fechou, Rosa teve de procurar um novo trabalho. Nesse momento viu um anúncio num jornal que procurava candidatas para enfermeiras. Para tal tinha de concluir o 3º ano do liceu. "Queria mesmo ser enfermeira e, por isso, fui trabalhar.”
Conseguiu emprego em casa de uma professora. Todo o salário era para pagar o seu curso de enfermagem, no liceu Rainha Dona Leonor. Enquanto isso a sogra cuidava dos seus filhos.
Depois de terminar o curso de enfermagem, em 1957, Rosa Andrade foi impedida de trabalhar nos serviços de enfermagem do Hospital dos Capuchos. “Era casada e, na altura, as enfermeiras para trabalhar não podiam ser casadas. Acabei por só ficar 8 meses e depois fui trabalhar para a Misericórdia de Lisboa, no Hospital Infantil”. Conciliava o trabalho com cursos complementares de enfermagem.
“Eu era casada e na altura as enfermeiras não podiam ter marido. Propuseram contratar-me como criada, porque as criadas já podiam ter marido. Eu disse que não. Não tinha andando a ‘queimar as pestanas’ para trabalhar como criada”.
Cinco anos passados, Rosa decidiu abrir um serviço de enfermagem por conta própria, que funcionou durante 15 anos. Entretanto o marido morreu. Rosa trabalhou ainda na Ordem Terceira de São Francisco, até 1995”, altura em que completou 70 anos e atingiu a idade limite para a reforma.
Pós- Reforma
Em 1987, Rosa foi estudar para tirar do 7º ao 12º ano. Três anos depois frequentava a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), onde se licenciou em Sociologia. “Ainda trabalhava como enfermeira quando decidi voltar a estudar. Fiz o curso [licenciatura] de 5 anos, porque na altura ainda não havia o Processo de Bolonha.”
Terminou o curso. Esteve dez anos em casa “até a Universidade me ligar. Ligaram-me para saber se eu gostava de ir fazer a licenciatura de Psicologia. Disse logo que não! Tinha medo de chumbar… Não sabia se a minha cabeça ainda estava boa para isso.”
A verdade é que a UAL conseguiu convencer Rosa e, aos 81 anos, tirou outro “curso e não chumbei em nenhuma cadeira. Mas não foi fácil, porque eu faço todos os trabalhos à mão e só depois passo para o computador. Nunca me dei muito bem com o computador, mas lá vou aprendendo.”
Fez 3 licenciaturas (Enfermagem, Sociologia e Psicologia). Mas teve de enfrentar alguns preconceitos, o que não a impediu de fazer alguns amigos. “A estranheza dos meus colegas jovens era uma velha, de quase 70 anos, estar a estudar com eles. Perguntavam-me: Mas a senhora paga para estudar? Claro que pago!”
E agora, como é a sua vida?
Aos 90 anos, prepara-se para entregar a tese de mestrado e já está a preparar o doutoramento (ambos em Psicologia). “A tese de mestrado [é] sobre o sofrimento, a dor e o preço oculto a pagar pela vida. Esse preço oculto é a morte porque não sabemos quando morremos”, diz Rosa admitindo que foi a sua experiência como enfermeira a razão da escolha deste tema.
Tem 4 netos e 5 bisnetos. “O meu filho sempre me apoiou. E agora, o meu bisneto que também estuda na UAL, às vezes ajuda-me a passar os trabalhos para o computador.”
O segredo para uma vida ativa e preenchida em qualquer idade é “Não parar. É andar para a frente até Deus querer. Acho que se nos agarramos a um sofrimento vamos mais depressa para a morte”, conclui a futura doutora Rosa Andrade.
"Eu esqueci-me de que o envelhecimento existia, só agora é que estou a aperceber-me de que sou velha, apesar de já ser velha há muito tempo".
| Rosa Andrade e o bisneto Hugo Baptista |
"No início, quando eu dizia aos meus colegas que aquela senhora era minha bisavó, eles pensavam que era brincadeira. Mas toda a gente a respeita. Senão, eu estarei aqui para resolver o assunto". (Hugo Baptista, 20 anos, bisneto)
Fontes de Informação:
Sem comentários:
Enviar um comentário