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Histórias de Ortanex #2

(Aconselho que leia primeiramente ESTE post)

Pirâmide do Egipto que serviu de decoração em Ortanex. Foto: Cláudia Pereira

Nunca dormi tanto como desde o regresso. Em Ortanex dormia pouco mais do que três horas por dia. Para quem está habituada a dormir oito...

Adormeço em tudo o que é canto. Nem que seja sentada à mesa. Cheguei a casa na quinta-feira desta semana e estive o resto do dia a dormir. Acordei e fui fazer limpezas e tarefas domésticas porque ainda estava com a pedalada de Ortanex. O resto do dia foi a dormir. Sexta à tarde, ainda com sono, não fiquei na cama e passei a fazer a minha rotina diária o que...não foi boa ideia. Continuo a adormecer sempre que me sento. Basta isso.

O que Ortanex me incutiu foram as regras do levantar cedo e deitar tarde, o trabalho diário e constante, a dedicação e o espírito do arriscar. É por isso que é inesquecível. Pois assim que acordava e me vestia rapidamente já estava a limpar casas de banho e a apressar as crianças a lavar a cara.

Ainda estou com o stress destas correrias das limpezas e a preocupação com as crianças. Uma delas falava um pouquinho à noite pelo que eu ficava logo acordada, preocupada, a ver se não lhe acontecia nada. Hoje é domingo e, embora já esteja em casa, acordo muitas vezes durante o sono e ando pelo quarto como se ainda estivesse em Ortanex. Dou por mim aflita à procura das crianças debaixo da cama, chamo por elas, acordo sobressaltada porque alguma delas saiu da cama... Ou é do stress ou é pelo facto de ser sonâmbula que isto me acontece. Porém, é também certo que preciso de descansar.

Quando digo que não tinha tempo, é a realidade. Não tinha tempo (nem telemóvel) para enviar mensagens ou, simplesmente, ver/ler notícias. Tinha de cuidar de crianças que não eram minhas. Tinha uma responsabilidade em cima das costas que era enorme e não podia falhar.

Vivi Ortanex e aproveitei como quis. Aprendi imenso e ri-me ainda mais. Os momentos que lá vivi foram vividos intensamente, mas isso não significa que me esqueci de quem sempre me apoiou. Não me esqueci dos amigos e familiares. Não me esqueci da minha realidade.





Quando a lua acordar, coisas que a vida tem,Vai-se o mundo deitar e tu também.Ai, quem me dera ir dentro do sol morarNunca ter de dormir e só brincar.E milhões de aventuras viverCom as estrelas no céu a correrE à terra apenas voltar se eu quiser.

(choir) Quando a lua acordarTu vais adormecer.


Histórias de Ortanex #1

Monitora Cláudia Pereira durante a Colónia, na praia do Pedrógão. Foto: André Micaelo
Vou falar-vos de um mundo inexistente: Ortanex, a terra das aventuras. Um mundo à parte no qual as brincadeiras, palhaçadas e responsabilidade são as regras da casa.

A Casa Amarela foi o palco de grandes momentos com crianças dos 7 aos 10 anos. Traquinas, como podem imaginar, foram um desafio para mim, enquanto monitora de uma Colónia de Férias.

Os "não quero" e "não gosto" tinham de ser eliminados de início. Os primeiros três dias de regras refletiram o comportamento das crianças nos restantes momentos da Colónia. Por exemplo, desde o primeiro momento os monitores tinham de os obrigar a comer toda a comida do prato, o que incluía alface, tomate e pepino. Tudo era complicado comer. Uns não sabiam mastigar, outros praticamente só sabiam o que era arroz e massa. Por outro, gostavam de nos testar. Diariamente.

Às refeições, os monitores adotavam várias estratégias para que os mais pequenos comessem tudo. A primeira era a insistência, o não mudar o que inicialmente se disse. (Se era para comer tudo, então a regra era lei do início ao fim.) Além disso, recorríamos à competição. Um "vamos ver quem acaba de comer a sopa primeiro" levava-os a comer de forma tão célere que pouco depois já não sobrava nada no prato. Destas técnicas, tenho de destacar a mais engraçada. Um dos meninos do meu grupo não queria comer grão. "Não gosto. Não quero. Não como". Olho então para o seu prato e vejo que pouco ou nenhum grão tinha, ao que lhe pergunto onde estava, afinal, o grão. Ele aponta. "Isso não é grão. É grunix. Não sabes o que é, pois não? Então come e vê se é bom", disse-lhe eu. Quando voltei a olhar para o prato dele, já não havia grão nenhum.

A parte mais difícil para que uma criança coma é mantermos a regra do princípio ao fim. Quantas vezes eles diziam não gostar de algo e afinal adoravam. Quantas vezes dizem que precisam de ir à casa de banho quando na realidade só nos querem testar. Tudo pode ser evitado se lhes ditarmos as regras até que eles as saibam de cor e depois, no futuro, as possam ditar também.   

Eu tenho fome, muita fome.Sede, muita sede.Vamos almoçar, p'ra depois ir brincar.Comer carne ou peixe, com um pouco de azeite, com um pouco de sal. Eu com tanta fome, pareço esfomeado.

Nos "Media": O dia em que me pediram o Registo Criminal

Como já tinha dito aqui, tenho novidades: o meu texto sobre o registo criminal foi publicado pelo jornal regional Ramo d'Além. A opinião (inicialmente publicada neste blogue) que a seguir transcrevo foi adaptada ao referido órgão de comunicação.
Já fiz voluntariado num lar de terceira idade, em arqueologia, missão no Alentejo. Colaborei e colaboro com alguns jornais. Ah! E passei pela cozinha de um restaurante e por lojas de costura. NUNCA me pediram o meu registo criminal. Tenho ar de assassina? Ou de violadora?
Nada disso. Bem, estas "férias" vão ser recheadas de muito estudo e trabalho. Voluntariado no projeto "aTerra" tal como na colónia de férias da Cáritas. O registo criminal foi-me pedido precisamente por causa de ser monitora na colónia de férias. Vou trabalhar com menores. Meninos e meninas que merecem de facto serem tratados como pessoas. Essa minha listagem de crimes tem TODOS os crimes que eu já cometi. Ou seja, nenhum.
Ainda bem que assim é. Porém, nunca assim foi. Porque é que nos meus 3 anos de voluntariado com idosos nunca, jamais e em tempo algum me pediram o registo criminal? Tinha 13 anos quando comecei, e depois? Será que ninguém lê notícias e olha para a realidade tal qual ela é? 
Governo de Portugal e governos mundiais, compreendam que as crianças e os idosos são dois grupos de pessoas que nem sempre são tratados como tal. Muitas vezes indefesos, crianças e idosos sofrem maltratos, violações, et cetera. É necessário pedir o registo criminal para trabalhar/fazer voluntariado com essas pessoas. É necessária formação para trabalhar, nomeadamente com idosos.
Quantos são os lares nos quais as pessoas são maltratadas? Quantos? Pois é. Talvez o contacto com outras instituições seja necessário. Para se ser auxiliar de lar não é necessário um curso superior, mas são necessários valores como o respeito, a amizade, a capacidade de trabalhar em grupo e o amor pelos outros. Sejam eles teimosos ou faladores. As pessoas merecem o nosso respeito. E o sorriso e carinho deles vale muito, portanto vivam o carinho que eles dão e deixem o vosso registo criminal limpo.

Artigo de opinião publicado no jornal regional impresso Ramo d'Além Nº134, julho de 2015, página 09.

Foto: Cláudia Pereira. DR

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