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| Foto: Jornal de Notícias de Ourém |
Estava
ainda ensonada, a arrastar os chinelos pela casa, com os olhos meio-abertos por
onde só entrava uma pequena brecha de luz e cor, quando recebo uma chamada que
me despertou de imediato e repentinamente. Diziam-me que as chamas estavam a
lavrar de novo as matas de Ourém e que o ar estava irrespirável.
Olhei
pela janela e fiquei com o coração nas mãos e a preocupação no rosto. Via-se o
fumo negro a rodear a aldeia. Não via as chamas. Vesti-me com a pressa de quem
não tem tempo para pensar. Saí para saber onde era o fogo. Ninguém me sabia
dizer. Calculei que fosse longe.
O
Norte e Centro do país, juntamente com o arquipélago da Madeira, estão pintados
de vermelho e laranja, rodeados de preto e cinzento e de labaredas que parecem
tocar no céu. Os soldados da paz fazem turnos de dia e noite, eles que extinguem
um fogo e vão para outro lugar combater outro. O descanso é pouco, o trabalho
muito. Passam dias sem ver as famílias, horas sem dormir. É o retrato de um
Portugal cansado de não ter descanso.
Hoje
é difícil dormir. Os helicópteros rondam os céus. Há pessoas que não dormem há
dias e nem sentem o cansaço tamanha é a aflição de proteger os seus bens, as
suas casas, os seus entes, as suas vidas. Somos um país onde a prevenção
escasseia e as promessas ficam à espera, mas o lume avança e o combate é muito
mais caro para todos(as).


