Abandonados


Estava a pedalar. Um local onde normalmente não se vê ninguém. Quando olho com mais atenção, uma senhora estava na eira, no chão, deitada num monte de caruma com o que me pareceu uma bengala ao seu lado. Continuei a pedalar, abrandando enquanto pensava o que estaria a senhora a fazer no chão. 

Voltei para trás e perguntei-lhe se estava tudo bem, com cuidado para que não pensasse que a queria assaltar. Sem acabar a questão, saio da bicicleta e pergunto-lhe como a possa ajudar. Ela, não me querendo incomodar, respondeu que caiu mas que me podia ir embora. "Oh minha senhora, diga-me só como a posso ajudar". Puxava-a pela mão e não conseguia levantá-la. De várias formas e não dava. O peso dos seus 80 anos e as dores que sentia eram mais fortes do que eu. A doença na perna esquerda não permitia levantá-la de uma forma simples. Comecei a sentir-me inútil por não conseguir ajudá-la. Ela, com toda a vontade e determinação, a sofrer, apoiou-se num banco que segurei porque este tinha uma perna mais curta que as outras. Ela virou-se, gritou baixinho e levantou-se. Uma determinação que me deixou boquiaberta.

Estava em pé mas a queda não a tinha feito desistir do seu objetivo. Caiu porque estava a tentar tirar pinhas que estavam atrás de um monte gigante de caruma. Uma tarefa árdua para a octogenária. Não aprendeu a lição e, sem medir de novo o risco, não deu importância à caruma e começou a debruçar-se para alcançar as pinhas, do outro lado. Ainda a avisei mas percebi que foi melhor assim: subi para o monte e fui-lhe buscar as pinhas. Desejou-me que todos os meus sonhos se concretizassem e depressa eles me acorreram à memória.


Depois, a memória voou. Os meus pensamentos pousaram na vida dos muitos idosos que estão sozinhos dias inteiros. Talvez à noite ou de manhãzinha tenham a visita de um familiar ou dos senhores que lhes levam a comida a casa, mas depois...oh, depois...depois ficam com a companhia da rádio, dos animais, da televisão. Já para não falar nos que são maltratados, até pelos próprios filhos. A questão está em que os jovens de hoje são os idosos do futuro. Nada justifica uma agressão, o uso da violência seja a quem for. E não será a solidão uma forma de violência?


2 comentários:

  1. Ajudar o próximo é algo brilhante. Devia ser normal, banal, mas não o é. E por isso é sempre bom, muito bom. :)

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