Um dia na Prisão

Fui visitar reclusos. Pessoas com a mesma idade que eu ou mais novas. Têm a liberdade restringida a espaços. Estão em celas, pavilhões, dentro de vedações. Cercados.

Eu e mais algumas pessoas fomos celebrar a Páscoa com eles, reclusos masculinos até aos 25 anos que estão no Estabelecimento Prisional de Leiria - Jovens, mais conhecido por Prisão Escola. Ir a uma prisão significa olhar todos como pessoas, como iguais a nós. Significa não julgar. Significa perceber o contexto de cada um. Os jovens que estão lá têm pais que estão presos, pais que os maltrataram, uma sociedade que não os acolheu ou integrou, famílias que não têm possibilidades para os deixar estudar, … Ou seja, em geral o contexto em que cresceram (familiar, social,...) que não os favoreceu.

São jovens que provavelmente não sabem o que é um abraço. Reparem a sorte que é chamaram-nos “filho”, “primo”, “amigo”. Reparem a sorte que é ter alguém que nos ouve. E é isso que eles precisam. Os reclusos precisam de ser ouvidos, precisam que lhes expliquem, precisam que lhes respondam.

Para além disso, ir visitar presos não é fácil. Primeiro, para fazer visitas é necessário integrar um grupo que já vá habitualmente visitar presos. No meu caso, faço parte do grupo Ondjoyetu e membros do mesmo perguntaram-me se queria ir. Já os familiares ou amigos dos presos quando vão visitá-los apenas ficam numa sala de visitantes (com mesas e cadeiras apenas, isto é, sem qualquer vidro que separe o recluso do visitante), não tendo acesso à restante prisão, ao invés de mim. Eu visitei mesmo os refeitórios, estive junto às celas, estive na Igreja deles, etc.

Como já integrava um grupo que costuma ir todas as semanas àquela prisão, para entrar apenas dei o meu nome e número de cartão de cidadão ao guarda prisional. É nesse edifício principal que fica a tal sala para as visitas.

De carro, percorre-se uma estrada algo longa que nos conduz ao espaço de atividades dos reclusos. Aí existe um lagar, um destilador, um amplo jardim que é cuidado pelos reclusos e uma igreja (atualmente sem uso, pois há outra). Foi então nessa igreja que recebemos uma pequena formação de como agir com eles, deram-nos conselhos, prepararam-nos.

Avançando novamente de carro, a estrada dá-nos acesso a outra área dividida em vários departamentos, cada um cercado com arame farpado. Eu fui a um desses departamentos. É um espaço com duas alas, a A e a B. Na entrada do departamento estão dois guardas prisionais, um para cada ala. Indo à esquerda, a ala A. Há grades a separar a entrada do refeitório e mais grades a separar o refeitório das celas. Portanto, ao transpor as grades, a ala A é composta por um pequeno refeitório e depois as celas. Eu não fui mesmo às celas, mas são como nos filmes, incluindo a janelinha na porta de cada cela que permite apenas que os guardas possam olhar para o interior da cela. A ala B é igual.

O ar gélido parecia não assustar os reclusos. Uns estavam de manga curta, outros a tentar aquecer os braços ao tê-los junto ao corpo. A refeição também não era um banquete: sopa, segundo prato, uma peça de fruta e eventualmente um pão. Tudo em pequenas quantidades. Será que ficam com fome?

É necessário que se alimentem bem para os labores do dia. As tarefas são muitas. Os reclusos que já provaram que têm um comportamento mais correto são os “reclusos de confiança”. Esses já podem trabalhar ao ar livre, embora dentro das vedações. Que trabalhos fazem? Agricultura, jardinagem, limpeza, tratam do vinho no lagar, ajudam no refeitório, etc. Sinceramente não sei o que os outros fazem.

Eles contribuem para a sociedade, lá dentro. Por exemplo, há um senhor que vai lá deixar sementes que os reclusos plantam e depois esse senhor vai lá mais tarde buscar os produtos já crescidos, os quais são posteriormente distribuídos pelo Banco Alimentar.

Para mim, é um erro não os ver como iguais, nem perceber que afinal podíamos ser nós com aquelas algemas. Antes de julgar e apontar o dedo há que perceber a realidade, o contexto, o olhar. E os silêncios.

Ir visitar os presos é uma lição de vida. Não me vou esquecer das vossas questões e quando voltar a ver-te vou dar-te a resposta; não vou esquecer os vossos olhares enquanto eu lia; não vou esquecer que estás no bom caminho e que estás a ajudar os teus colegas a encontrarem o caminho deles; não vou esquecer as tuas lágrimas depois do que li. Posso não me lembrar das vossas caras, mas não vos vou esquecer.

Saí com o coração cheio e não sei se lhes dei mais a eles ou se foram eles a mim. Adorava ter estado mais tempo, de ouvi-los, de responder às perguntas que me colocaram, mas não tive tempo para o fazer. Porque todos nós cometemos pecados; todos nós erramos; todos nós podemos mandar pedras e todos nós podemos juntá-las. Para subirmos é preciso estarmos todos de mãos dadas.

"Existe um tempo próprio para tudo

um tempo para nascer e um tempo para morrer;
um tempo para plantar e um tempo para colher o que se semeou;
um tempo para matar e um tempo para curar as feridas;
um tempo para destruir e outro para reconstruir;
um tempo para chorar e um tempo para rir;
um tempo para se lamentar e outro para dançar;
um tempo para atirar pedras e um tempo para as juntar;
um tempo para abraçar e um tempo para afastar quem se chega a nós;
um tempo para rasgar e outro para coser;
um tempo para estar calado e um tempo para falar;
um tempo para amar e um tempo para odiar;
um tempo para a guerra e um tempo para a paz".

Foto: Cláudia Pereira. DR

8 comentários:

  1. Será possível que só de ler tenha sentido um murro no estômago? Pelo que percebi eles não cometeram nenhum delito, mas são jovens sem qualquer apoio estrutural familiar, certo?

    Tiveste um oportunidade excelente e parabéns ao grupo a que pertences. Acredita que fizeste alguém feliz só por teres falado 5 minutos!

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    1. Eles não me disseram porque estavam na prisão, mas pelas conversas cheguei a alguns crimes. No entanto, não olhei para o crime. Olhei para a pessoa apenas. Sim, a maioria não têm esse apoio tão essencial na minha opinião.
      Espero mesmo que sim J Margarida. Muito obrigada pelo teu comentário :)
      Beijinhos,

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  2. É algo que gostávamos muito de fazer. Deve ser realmente gratificante!

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  3. Parabéns Cláudia pela partilha! Já tive oportunidade de entrar em algumas Cadeias, em Moçambique, e de fato o que se trás de lá é sempre mais do que o que se leva, concordo contigo quando dizes que ir visitar os presos é uma lição de vida, é-o de verdade...

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  4. Adorava fazer o mesmo! São realidades que merecem ser partilhadas!
    http://bloguedacatia.blogspot.pt/

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