Entrevista a Emília da Conceição Ribeiro
É da metrópole e via Skype que o RAMO D’ALÉM conversa com
Emília Ribeiro. A vivência da religião começou em casa, mas depressa formou o
grupo de jovens do Cercal e foi catequista. Um retiro aos 19 anos foi o
“clique” para a vida consagrada. A vida religiosa já a levou a vários países,
mas Portugal é agora o destino da sua missão.
Podemos começar por falar sobre a
sua meninice. Como é que foi a sua infância?
Foi
uma infância muito agradável, a vivência na aldeia. Eu ajudava em casa e no
campo, com os animais e nunca tive dificuldades no ambiente escolar.
Era uma aluna aplicada e os seus
professores até diziam para ser professora.
A
minha última professora foi sobretudo quem recomendou muito que eu fosse
estudar
.
Nessa altura o cristianismo já
estava presente na sua vida?
Como
em qualquer ambiente cristão, rezávamos o terço em casa, participávamos quase
diariamente na Eucaristia, ia à catequese.
Então não integrou nem grupos de
jovens nem foi catequista?
Mais
tarde. Aos 18 anos formámos um grupo de jovens no Cercal que não durou muito
tempo e, nessa altura, ser catequista também ajudou a solidificar a minha fé, a
ver as coisas numa perspetiva um pouco diferente.
Houve
uma pessoa que me influenciou positivamente, e que eu considero um santo, que
foi o padre Bento Simões com quem eu gostava muito de falar.
Qual considera que foi o “clique”
para a vida consagrada?
Foi
um retiro que fiz, aos 19 anos, na casa das Irmãs da Divina Providência, em
Fátima, depois de elas terem falado da sua experiência numa Eucaristia. Começou
a marcar de maneira diferente a minha vida.
Chegou a trabalhar de forma
remunerada.
Acabei
a escola aos 12 e com treze anos fui trabalhar para Fátima numa casa de artigos
religiosos e que alugava quartos. Dois anos depois fui trabalhar para Tomar
para uma família que tinha duas crianças. Estive lá 5 anos. Conheci uma
realidade diferente, que foi a vida na cidade. Aprendi bastante e foi a partir
daí que parti para a vida religiosa. Aos 19 anos é que eu comecei a questionar
o futuro, depois de a minha Mãe morrer. Foram seis anos de luta, de procura,
mas sempre querendo fazer aquilo que eu sentisse que era a vontade de Deus. Não
a minha.
A morte da sua Mãe aos 16 anos pôs
à prova a sua fé?
Não.
Pelo contrário. Aliás, o padre Bento Simões foi quem me ajudou a ver que onde
ela estava agora podia fazer muito mais por mim e por toda a família.
Como surgiu a decisão de ir para as
Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres?
Depois
do retiro e de passar fins de semana com as Irmãs da Divina Providência,
percebi que não me sentia bem identificada com o que elas faziam. Faltava-me
alguma coisa para dar o passo. Aos 21 anos, as Irmãs Concepcionistas
convidaram-me para um retiro na casa delas e comecei a ir a outros com elas, a
conhecer o trabalho que elas faziam. Isso entusiasmou-me. Fez-me ver que me
sentia identificada com esse carisma.
Como é que os seus pais (pai e
madrasta) reagiram à decisão?
O
meu pai dizia-me que era muito sério e que não andasse a brincar com isso. Eu sabia
que ele se sentia muito orgulhoso.
Ingressa na Congregação e vai para
onde?
Primeiro
estive em Fátima, depois em Elvas. Em 1997 fui para Roma e em 2000 para
Moçambique.
Quando se lembra de África, o que é
que pensa?
Tenho
muitas saudades, foi uma missão que me encheu as medidas, porque senti que o
trabalho que fazia ali podia não ser nada mas era muito para as pessoas que
servíamos, principalmente para as famílias que ajudávamos no interior e para as
crianças órfãs, desnutridas e com SIDA. O último trabalho que fizemos foi abrir
uma casa para crianças órfãs que me chamavam “Mamã, Mamã!”. Tudo o que fazia
dava-me muito gozo.
Foi difícil voltar para Portugal?
Depois
de lá ainda fui para Timor, onde se vive uma situação diferente, porque não há
tanta ‘miséria’ como em África. Vir para Portugal foi encontrar uma situação
totalmente diferente, toda uma ‘engrenagem’ a que já não estava habituada.
Desde o princípio coloquei nas mãos de Deus para que ele decidisse aquilo que
ele achasse melhor e a obediência a Deus passava pela obediência às minhas
superioras.
Então
não foi uma decisão sua.
Não. Quer dizer, não
foi uma decisão minha, mas acatada e muito bem aceite por mim.
Da
mesma forma não foi uma decisão sua ir para a Universidade Lusófona, para o
curso de Contabilidade, Fiscalidade e Auditoria.
Não, não foi e estava
longe dos meus planos.
Como
está a correr?
Mais ou menos,
sobretudo ‘pelas matemáticas’ que estão um bocado esquecidas. Foram muitos anos
sem estudar.
Por
fim, o que significa para si ser freira?
Significa estar livre,
disponível para servir o Senhor ao jeito de Madre Isabel, fundadora da nossa
congregação. Vivemos com base nos votos de castidade – castidade, obediência,
pobreza. É difícil a sociedade de hoje entender a vivência dos votos, mas para
mim tem um sentido muito grande.
Entrevista para jornal RAMO D'ALÉM
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