Opinião: Meu Pai, O General Sem Medo

Um magote de pessoas recebe Humberto Delgado na Praça de Carlos Alberto, no Porto, em 1958. DR
História ou memória? Ambos podiam estar em Meu Pai, O General Sem MedoMemórias de Iva Delgado, mas um ficou menos claro. A História enquanto explicação e aprofundamento das questões do passado. Porém, a escrita embala-nos fazendo-nos esquecer de que é uma história real.


Pontos Fortes

- O facto de ser um familiar (neste caso a filha) a contar a história de vida de Humberto Delgado, possibilita-nos ter uma perspetiva diferente desta personagem, inclusive dos seus defeitos e qualidades. Desde o bom humor, à preocupação até à generosidade;

- Escrita fluente, enriquecida de descrições criativas que nos permitem obter uma ideia clara da vivência de tempos idos. Saliento a frase “sentir o suor em grossas bagas na testa” (Delgado, 2015: 26);

- Ideia excelente de Iva ter ido falar com o jornalista Lindorf Pinto Basto que, durante uma conferência de imprensa, perguntou a Humberto Delgado o que faria a Salazar caso ganhasse as eleições de 1958, cuja resposta ficou célebre: «obviamente demito-o» (não era assim tão óbvio). 
Na entrevista de Iva Delgado, Lindorf diz que «o autor da pergunta [o próprio Lindorf] ficou no limbo a que são votados os jornalistas quando não são mortos em serviço» (Delgado, 2015: 123);
- Conhecimento de estratégias políticas: «Meu pai tinha tido uma conversa connosco sobre a nossa presença durante a campanha. Era bom darmos a imagem da família, em contraste com Salazar, homem sem família oficial» (Delgado, 2015: 138);

Placa do hotel "Astória" com o número 21 a fazer de "H".
- Permite conhecer um pouquinho da história do hotel “Astória”, de Coimbra, cuja curiosidade me beliscava sempre que pelo edifício passava.



Pontos Fracos

- Escassa explicação de acontecimentos históricos. O pior erro, no meu ponto de vista. Sendo Humberto Delgado uma figura histórica seria de esperar que quem goste de História fosse ler o livro. Eu li-o com o objetivo de aprofundar os meus conhecimentos nessa área, mas acabei por ficar a saber mais sobre a forma criativa com que posso dar vida a um texto. Exemplificando, apenas refere «Dezanove de Outubro» de 1921, sem explicar nadinha (Delgado, 2015: 24) e, sobretudo, quando escreve «Uma rádio que estava a incitar a multidão foi fechada» (Delgado, 2015: 140) – qual rádio?;

- Exagero de palavras usualmente não conhecidas pelo senso comum, como é o caso de “alarvidade”, “ululante”, “boçal”, “choldrice” e “nababos”, nas páginas 66 e 67.



«Presidente da Liberdade» ou «General Sem Medo», Humberto Delgado era uma figura anti-salazarista com uma impressionante vontade de vencer as eleições e impor a Liberdade. Facto não concretizado (por ele). O livro memoriza o Humberto Delgado enquanto pai e marido. Não eterniza factos históricos de relevo que mereciam ter sido aprofundados. A minha pesquisa sobre este senhor da História de Portugal vai ter, afinal, de continuar.

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