Nos "Media": Entrevista ao "Finger" João Torres

“A repetição é a mãe da retenção”


Tenta ativar o gosto dos jovens, fala com as pessoas e mostra-lhes Zeca Afonso. São músicas adaptadas e, portanto, não tal e qual as do Zeca. Os vinis foram o empurrão e agora não para até porque “o nosso êxito é a habilidade de irmos de um fracasso ao outro sem perdermos o entusiasmo”.

Cantor de rua João Torres, conhecido por "Finger" a tocar no Quebra-Costas, Coimbra. Foto: Cláudia Pereira

Qual é o significado da música para si?

Há cerca de 500 anos atrás toda a gente era músico, toda a gente cantava e dançava e o canto estava muito ligado à dança. Tinha era de se dançar. E isso tornou-se um pouco elitista com a geração da música clássica também. E para se ser músico ou é bom ou é mau. Aquele é um vadio, toca na rua. Ou é músico e não quer fazer nada. Na realidade há muito trabalho. É uma coisa pessoal. Agora a música em si é mais do que pessoal ou espiritual. É como um equilíbrio que conseguimos trazer a nós. Toda aquela regra da harmonia, do tempo, da melodia…isso tudo é música. E devia fazer parte de todos. Toda a gente devia dedicar um pouco do seu dia a ouvir música.

Como é que ganhou essa harmonia se não tem estudos em música?

Foto: Cláudia Pereira
Isso acontece de uma maneira muito interessante. É a primeira vez que vou contar esta história assim gravada. E tenho vontade de fazer isso porque estou em fase de mudança de vida, vou sair de Coimbra e é bom que fique registado para a eternidade. Isto começa em 1989 com um acidente de automóvel com a minha família. O meu irmão fica em coma muito tempo e ele queria uma guitarra no natal desse ano. A minha família nunca foi de grandes possibilidades económicas, então se uma prenda era cara, era cara para todos. Nessa altura eu queria uma raquete de pingue-pongue e os meus pais ofereceram-me uma guitarra.
Enquanto o meu irmão estava em coma, aparece um psicólogo que fala com a minha Mãe e lhe disse que talvez a música o ajudasse a recuperar. E eu em três semanas aprendi a tocar guitarra. Só “rocalhadas” fáceis de tocar. Então todos os dias treinava nos intervalos da escola e depois ia ao hospital e tocava para o meu irmão.
Um dia chego ao hospital e o meu irmão já não estava. Foi para casa porque os meus pais trabalhavam no hospital e então deram essa possibilidade. Eu fiquei super contente. A partir daí nunca mais parei.

João prepara-se para tocar. Abre o livro que o acompanha sempre onde estão todas as composições de Zeca Afonso.Foto: Cláudia Pereira

E como surge o Zeca Afonso?

O Zeca Afonso surge de uma forma muito “inquisicional”, porque a música era bem-vinda em casa dos meus pais mas não como um passatempo ou uma forma de ganhar a vida. Então eu não podia tocar. Só podia tocar se tivesse aquelas notas ou se me portasse daquela maneira…então eu tocava às escondidas. Punha umas luvas, umas meias na guitarra para não se ouvirem as cordas e praticava. Esse tipo de trabalhos é muito bom porque nos obriga a ter muita técnica.
Acontece que eu não tinha música para ouvir. Só tinha, da minha irmã, os ABBA, Madonna, Samantha Fox… Da parte do meu irmão, o guitarrista [John] Petrucci e coisas nada ligadas à guitarra acústica, que era a que eu tinha. Então descobri na casa dos meus padrinhos vinis de Zeca Afonso, Fausto… E eu adorava as guitarras, as vozes, todos os pormenores.
Como não podia ouvir em casa, fazia uma grafonola com papel lá agarrada aos gira-discos e levava aos meus pais. Deixava-lhes a mensagem de que todas as músicas faziam sentido.
Depois, com o passar dos anos, fui-me dedicando e praticando muito guitarra. Hoje já menos. E há essa continuidade de que o que fazemos nunca está bem, pois falta ali um apontamento ou mais qualquer coisa. E esta ligação a Zeca, saber mais [sobre a vida e obras] e mostrar às pessoas que gosto de Zeca e o haver muita identificação nas pessoas…é fácil. Então em Coimbra é muito mais fácil [que se identifiquem com as suas músicas].

Respondeu há bocado que praticava menos guitarra. Porquê? Tem outros trabalhos para além de cantar na rua?

Neste momento, além de ser pai, dedico-me à pastorícia com cães. É uma coisa tão gratificante que estamos a investir a nossa vida toda nisso.

Mas isso não tem muitos rendimentos e a cantar na rua se calhar também não ganha muito.

Podemos ter muitos rendimentos com as cabras se aproveitarmos bem aquela terra. Eu já tive a minha experiência de vida de trabalhar muito. Toquei em grupos de baile, o que dá muito dinheiro, só que trabalhas muito e é como o teatro, pois não podes improvisar.
Em coisas de consumismo era ter tudo e não ter nada porque não havia tempo para desfrutar das coisas. Eu tive uma casa lindíssima com umas roseiras centenárias, uma piscina… e eu gastava 3oo euros por mês para manter a piscina e ao final de dois anos fui a ver e dei lá um mergulho naquela piscina. Um em dois anos. Não tinha tempo para desfrutar das coisas. Depois, em 2007, houve uma mudança radical da vida e optei pela simplicidade das coisas.

Estava a dizer que a piscina era um bem supérfluo. E prémios, também são supérfluos? Já recebeu algum? Qual era o melhor prémio que gostaria de receber?

O melhor prémio que se pode receber na vida é a partilha. Seja ela qual for. Porque é uma aprendizagem constante.
Já recebi taças e já fui campeão de muitas coisas. Trabalhei para isso, mas é momentâneo. E dentro desses prémios, o melhor que a vida nos dá é a partilha.

Foto: Cláudia Pereira
E quer continuar a partilhar a música aqui na rua ou já pensou em integrar grupos de música de rua como, por exemplo, a Orquestra de Música de Rua de Coimbra?

Trabalhei muitos anos em grupos de música de baile. E aquele rigor dos ensaios…custa-me “dizer que não” [a um deles]. Então, como tenho animais, basta um dia ser mais chuvoso para ter de preparar os animais para que no dia seguinte estejam protegidos da chuva e com comida.
É esse manejo da vida que não me permite. Meto-me em todos [os grupos] que possa sem compromisso. Ainda há pouco tempo toquei num espetáculo com uma harpa e uma flauta transversal, mas foi só um ensaio e ficou feito. Sem compromisso.
Adorava poder ensaiar com grupos de cavaquinhos e de cordas e orquestras que já me pediram, mas não tenho tempo.

Foto: Cláudia Pereira
Então vai continuar a ser um cantor de rua que também tem a pastorícia…

Agora o meu próximo projeto musical vai ser fazer tudo via Internet, ou seja, tenho uma página [no “Facebook”] em que mostro os trabalhos e tento brincar um pouco com as aparências, com o que vemos no dia-a-dia de pessoas que fazem uma música menos “apetecível” mas vende porque tem uma aparência boa.
Gosto muito da ideia do “Gangnam Style” e da história desse senhor [do “rapper” sul-coreano PSY]. Ele goza com as pessoas e elas pagam-lhe. Faz isso com uma arte única. São as aparências. Sabes que quanto mais te “chicoteiam” mais as pessoas te querem.



Diz ter originais mas não os vai publicar. Só se for outrem a fazê-lo, porque diz “não [conseguir] avaliar a minha música e dizer que é boa, porque a música não é má em lado nenhum, os intérpretes é que lhe dão essa alma.” Por fim, deixou-nos com as suas máximas e as suas músicas.

“A repetição é a mãe da retenção”


“O nosso êxito é a habilidade de irmos de um fracasso ao outro sem perdermos o entusiasmo”


Pode encontrar a página de "João Torres & Aparências" AQUI.

Publicada no jornal "Mira Online": http://miraonline.pt/a-repeticao-e-a-mae-da-retencao/ 

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